
Na «Gaia Ciência», Nietzsche descreve o niilismo desta forma: «Para onde vamos nós próprios? Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados?».
A ideia de «queda», nas suas múltiplas dimensões, marca tragicamente a vida do homem. Mas este não é um conceito aplicado só à vida no plano pessoal; é também no plano cósmico. O mito de criação babilónico, por exemplo, apresenta-nos a criação a partir de um quadro de profunda violência e desordem – de queda. É o corpo dilacerado da deusa que dá origem ao universo e do seu sangue surgem as constelações. O mito judaico da criação também apresenta a formação dos mundos a partir de um estado de queda: é a criação que surge a partir de um cenário de vacuidade e de caos disforme.
É um facto: somos habitados – tragicamente habitados – por uma propensão para a queda. E o facto de estarmos «incessantemente a cair», como dizia Nietzsche, torna o homem um ser decadente! O segredo, contudo, está em ter uma queda controlada para minimizar os danos e optimizar, afinal, a vida.
Cada passo em frente é também uma queda! Andamos e caímos. Mas por incrível que pareça, a vida também se forja, também se ergue, também se vive a partir das quedas.
Já são horas de me levantar